


o tempo assassinado
O tempo esta passando tão depressa que parece até que o tempo tem cada vez menos tempo para passar. Ricardo Piglia, escritor argentino da atualidade fala do “Elogio de la lentitud.” : “A circulação da escrita parece alcançou uma velocidade extraordinária, mas o paradoxo é que o tempo de leitura não mudou. Lemos, hoje, como líamos no tempo de Aristóteles: vamos decifrando signo após signo e isto nos coloca em uma situação similar a que tínhamos na época em que a circulação da escrita não era tão rápida”.
Willian H. Hudson nos conta em “Allá lejos y hace tienpo” um livro de 1918 sobre sua vida nos pampas como lhe chegavam para leitura os romances e depois de lê-los os emprestava para fazenda vizinha, cinco quilômetros adentro, que depois era emprestada a uma outra mais para frente. Os conteúdos iam se adentando a cavalo.
A informação que, antigamente, moderava nossa vida vinha no compasso do navio ou do cavalo. O Brasil é um país de notícias tardias. O deslocar da família real portuguesa de Lisboa para o Brasil só em 1808 trouxe como complemento a Imprensa Regiaque veio viajando em navio da frota de nome “Medusa” aquela senhora que tem cobras na cabeça. Talvez esta seja a esta a razão da escrita não querer ser estável como pedra e ser tão mais mutável do que o código que espelha entre nós.
Na vagarosidade de 1808, o jornalista Hipólito José da Costa imprimia na Inglaterra o seu jornal de oposição “Correio Brasiliense” e cada edição despachada de navio para o Brasil chegava com as últimas notícias três meses após a impressão e embarque na Europa. Eram conteúdos tardios pois, ao chegar outras já eram as temáticas do momento político na colônia. No Brasil do início do século passado a informação chegava e ia se embrenhando para o interior na vagarosidade das entrada e bandeiras. O Correio Brasiliense, jornal de 1808, impresso em Londres levava 90 dias para chegar à nossas costas.
Atualmente a sensação presente no dia a dia de um tempo indo mais rápido existe e poderia ser atribuída,também, a uma forte indução ao modismo imposto pelas mídias de massa que querem alavancar o calendário em benefício de suas vendas. Quanto mais vende o comércio mais encomendas têm a indústria e todos têm mais dinheiro para atribuir às verbas publicitárias. Na agenda do consumo programado vivemos sempre no futuro.
Assim, por um interesse mútuo dos meios, anúncios, consumo somos incentivados a viver além do presente. Um ano começa depois do carnaval, quando já nos preparamos para páscoa, depois, mães, namorados, o pai e em outubro somos jogados para viver dezembro num “jingobels” colorido de consumo. Apressamos a chegada do futuro em fluxo contínuo pautado pela economia da velocidade. A velocidade da informação trazida pela internet, principalmente após a socialização da web em 1995 é, ainda, uma forte razão para a mudança do tempo das trocas e do vai e vem dos enunciados das narrativas.
Falta, assim, delinear as bases dessa uma nova economia política da rapidez dos conteúdos em fluxo e a harmonização necessária das relações de nossa vida presencial objetiva com a nossa vivência sem presença na realidade vitual.
As trocas atuais de significados são momentos próximos à instantaneidade e com isso assassinam o tempo dos folhetins de outrora que iam se contando de palavra a palavra destinados a um fim preso ao seu formato físico.
Aldo de Albuquerque Barreto
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# Alla Lejos Y Hace Tiempo
de Hudson Guillermo Enrique
Willian H. Hudson em inglês
Kraft (1958)
# Ricardo Piglia
Elogio de La Lentitud,
O Clarin, Revista Ñ de 25/01/2008
Precisamos entender nossa ambiguidade de poder estar na terra ou viver no mundo. Habitamos a terra que é a parte sólida do globo, o espaço e território da vida temporal profana e física com fundeada no real, sólido e incontestável. Um lugar das realizações físicas que converte o espaço em possibilidades de fixar, espacializar e localizar. Ao longo da história, a terra tem proporcionado ao homem os recursos para criar, viver, morrer. Estamos no mundo quando quando deixamos esta realidade física como um principio regulador, como uma racionalidade aterrada; no mundo estamos emaranhados na relação com outros seres. Temos ali a liberdade das coneções e de seguir pelos links e as metaforas para estar em um espaço infinito onde a vivência dispensa qualqer presença fisica para ser manifesta. Habitamos a terra mas podemos viver no mundo.
O Datagramazero completou com o número de dezembro de 2011 treze anos de circulação procurando estabelecer uma nova forma de escrita.
Uma escrita é denunciada pelo seu “grammé” que é o seu traço, sua feição, não é só um tipo de grafia, mas a articulação entre a forma de sua inscrição e seu movimento de significação apresentando visualmente as diversas possibilidades de expressão.
Sendo a escrita uma interface visual da linguagem a sua grafia é a arte de escrever palavras que remetem a um imaginário tradutor de significados. O traço de uma grafia difere em inúmeras culturas, como a japonesa, a chinesa e a árabe e a digital.
Dependendo do modo da escrita, o sistema de representação da língua, pode ser um enunciado que vai de palavra a palavra como na escrita papel e tinta; acreditamos que com a escritura digital a palavra não é mais a menor unidade de significado. Esta menor unidade seria um bloco de imagem, texto, som, movimento. Unidade que chamamos de Ciberlexia, ainda, em pesquisa e que estaria relacionada à capacidade de visualização espacial do receptor no âmbito de sua competência cognitiva para assimilar a informação ali contida.
O nome lexias foi cunhado por Rolanda Barthes para indicar os locais em que um conteúdo entra em terremoto de significação; também é apontada como fragmentos que caracterizam uma unidade de leitura, um corte completamente arbitrário sem qualquer responsabilidade metodológica. A lexia é o envelope de um conjunto semântico, a voz da escritura, a linha saliente de um conjunto plural.
O traço ou o grammé vem de Jaques Derrida e não é uma substância presente aqui e agora que se possa ver, sentir ou ouvir a diferença: o traço da escrita é a diferença em si, isto é, a diferença de existir divergente em um mesmo espaço. Uma contestação temporal de um adiamento do significado que agora vai de bloco a boco para possibilitar a apreensão dos ciberblocos. O DataGramaZero acredita ter criado em 1999 o “marco zero” desta nova significação.
A revista nasceu e ainda traz uma condição experimental para o estudo das novas formas de escrita e leitura. Sua aposta é que o ato da leitura deve se realizar como um ato de criação em si mesma.
A revista foi uma ousadia em um mundo editorial que, ainda considerava como opção unica um texto papel e tinta como obra publicável; obra que iria do emissor ao receptor, sem potencializar as nuances do imaginário no processo de geração e de assimilação da informação. Ser livre e estar online marcam a realidade do DGZ, que pretende no futuro definir esta nova palavra digita.
O DGZ tem treze anos de edição e uma média de seis artigos com dois autores por número. Na revista procura-se demarcar a autoria em até três autores para um artigo. Entende o Data que a geração de ideias nas ciências humanas e sociais possui um discurso de criação personalizado, o que torna muito difícil marcar na estrutura do artigo qual foi a parte de cada um dos autores.
É uma condição diferente das áreas exatas onde na bancada do laboratório pode-se ver e qualificar a participação de cada pesquisador no processo que resultou a pesquisa e a escrita. Nestas áreas credita-se como autor até um gerador de dados, um importante colaborador.
O que individualiza o autor nas humanas e sociais é o fato de podermos distinguir e delimitar através de seu nome o pertencimento à área do conhecimento pelos os textos que escreveu e que lhes são atribuídos. Textos se conectam através de famílias de vínculos semânticos (ideias) e sociais (coautores) determinados por aproximações e afinidades construídas ao longo da institucionalização da área e do autor na área.
Foucault nos fala que a “função-autor” não se constrói simplesmente atribuindo um texto a um indivíduo com poder criador; mas constitui uma característica do modo de existência dos discursos no interior da cultura da área, ou seja, indica que tal ou qual discurso deve ser percebido de uma determinada maneira. O que faz de um indivíduo um autor é o fato de através de seu nome delimitamos as ideias que lhes são atribuídas relacionando-as claramente com um tema e um campo.
O discurso corretamente assinado por seus enunciadores definem o vigor da área ou a sua vulgarização. A múltipla autoria sem visibilidade na agregação da pesquisa e escrita enfraquece a autoria, a escritura e o campo.
Assim, em treze anos de publicação do DGZ podemos contar cerca de quatrocentos artigos e algo como mil autores e coautores. Sendo ainda uma revista que quer permanecer experimental, frequentemente, considera a natureza do seu conteúdo temático. Nascida na área de ciência da informação, atualmente, esta influência não é mais a única e está ampliada, e liberada, para todos os espaços que lidam com a informação em todas as suas formas.
Criado livre o DataGramaZero apoia o livre fluxo da informação para uma sociedade mais justa. Assim, a própria revista se estabeleceu e se acomoda, em sua condição burocrática de propriedade mais livre. Sem pertença forte, o seu domínio se associa a condição do poder fazer e levar adiante ideias de uma escrita e leitura em mutação; e assim irá a revista até que esta condição mude por um movimento quase normal para uma nova harmonização. Uma conciliação que só poderá acontecer dentro de uma esperança de livre conveniência com que ela foi concebida.
Aldo de A Barreto, 9 de dezembro de 2011
Quanto eu uso uma palavra, disse Humpty Dumpty, ela significa exatamente o que eu quero dizer: nem mais nem menos. ( Lewis Carrol )
Existe uma tendência tecnicista, uma visão determinista de que a tecnologia trará sempre e somente benefícios sociais no seu trajeto. A sempre boa tecnologia traria benefícios equânimes para mim e para meu parceiro. Pela facilidade disponibilidade e de acesso à informação em formato digital tem um ambiente que facilita a inclusão social pela facilidade de espacial de acesso. Existe uma barreira para acesso a informação colocada pelo local de acesso e potencial uso dos conteúdos em acervos eletrônicos. Há que considerar o Efeito Beaubourg que comenta a exclusão do acesso aos estoques pelo tratamento espetacular da ocupação de áreas da cidade por projetos culturais em contradição com o teor instrutivo e formativo que justificariam aqueles espaços [1]
Mas o esforço para aumentar a inclusão social, informacional não pode ficar restrito a preleção de uma política de tecnologia. A preleção da tecnologia não acontece sem intervenção, em um programa dinâmico. O discurso em si é só uma peça a mais de informação, que fica sempre no espaço da esperança ou uma promessa escrava das palavras. Discursos só se realizam nas ações que se orientam por uma premissa prática, uma racionalidade finalista. Há ainda esta desconfiança com os discursos contemporâneos: “Os discursos mentem, ou jamais conseguem dizer suficientemente claro…..É uma representação, eficacíssima, de como através de sucessivas interpretações uma mensagem é desconstruída e levada a exprimir somente aquilo que o emitente queria dizer.” [2] Mas o discurso da tecnologia traz sempre a sedução de mudança para uma vida melhor .
Embora os cientistas concordem que ainda há um longo caminho a percorrer eles acreditam que é legítima a preocupação de que o progresso tecnológico possa transformar o mercado de trabalho ao acabar com tipos de empregos, bem como forçar seres humanos a conviverem e serem pautados por um crescente número de apetrechos de comunicação. Tem sido muito pensado neste novo século cibernético a questão do valor da tecnologia quando ponderado contra a possibilidade de uma existência mais simples e com mais tranquilidade. Qual seria o papel da tecnologia neste grande dilema do ser humano atual.quanto dela se orienta para favorecer uma inteligência coletiva e quanto para ajudar uma inteligência de competição individual. Como as técnicas emergentes se associam a felicidade do ser humano na simplicidade dos seus espaços onde vive em comum, espaços com sentimento de existir em conjunto.
Mas, as utopias coletivas da felicidade têm sido, bastante, trocadas por sonhos individuais que, conduzem a uma nova configuração do valor da igualdade social. A aspiração do indivíduo tecnológico se dirige, cada vez mais, ao sucesso, ao lucro e a individualidade. Sonhos conduzidos por uma procura competitiva da maior vantagem pessoal. A tecnologia que deveria ser dirigida para uma sociedade solidária mostra na fragmentação de seus membros, estar envergonhada ao servir melhor os interesses das trocas e dos valores individuais.
A gestão dos estoques de informação adotou para si os preceitos de produtividade e da técnica como racional de formação e distribuição. A crescente produção de informação precisa ser reunida e armazenada de forma eficiente, obedecendo a critérios de produtividade na estocagem e valor político na distribuição, mesmo que isso resulte em distribuição inadequada
Neste sentido quanto mais configurações técnicas estiverem entrelaçadas no processo de organização dos estoques digitais maior será a possibilidade de se ocultar a informação na sua distribuição. Seria coerente supor, então, que, em um ambiente de estoques virtuais existe o poder e o perigo de seus administradores para ocultar a informação quando da distribuição à cada pessoa. Neste contexto, ao contrário do que se acredita, cada receptor pode estar recebendo uma informação individualizada e diferente de um outro receptor, mesmo em convivência.
Isso aconteceria como um privilégio da técnica e não dos problemas relacionados com o volume dos estoques de informação. Na era da vivência em redes e da socialização das oportunidades, em que se rediscute o racionalismo radical, o individualismo aparece com nova e perigosa máscara ocultando informação; esta nova forma de esconder conteúdos esta sendo colocada pelos mecanismos de pesquisa ao desenhar uma individualidade informacional, não pela nossa escala de desejos, mas fruto de estudo com modernos algoritmos que percorrem a nossa vida de competências, de cognições prévias e pesquisas na rede. Forma-se uma exclusão emparedada por fatores como educação, renda, decodificação de códigos, entre outros. [3]
Se eu e você procuramos no mesmo browser de pesquisa da internet um mesmo tópico, digamos “hipertexto”, usando a mesma palavra para busca, os meus resultado da pesquisa serão diferente em qualidade e relevância do que os tópicos que lhe serão apresentados, pois o algoritmo do browser decidiu serem estes os mais apropriados dada suas competências, seu aprendizado e condições de cognição. [4]
E é assim que pelo jogo dos poderes de guardar e ocultar a informação na realidade dos receptores, que o livre acesso ao seu fluxo vai se transformando, só em lenda.
Aldo de A Barreto
Referências
1 - Distinção e Enobrecimento Urbano: os Centros Culturais e o Mercado de Bens Simbólicos, Trabalho de Marco Estevão de Mesquita Vieira apresentado no XIII Congresso Brasileiro de Sociologia. 2007.
2 - Umberto Eco, Ente a mentira e a ironia, Editora Record, Rio de Janeiro, 2006
3 - S.O.S.- Save our serendipity, em
http://www.miriammeckel.de/2011/10/11/sos-save-our-serendipity/
4 - Personalized Search for every one.
http://googleblog.blogspot.com/2009/12/personalized-search-for-everyone.html
Quando um número limitado de pessoas conhece algo novo isto passa a fazer parte da sabedoria desde grupo. A hipótese do efeito dos cem macacos diz que dentro de uma sociabilidade [1] haverá um ponto em que se uma só pessoa a mais é sintonizada com determinado saber, isto forma um campo de ressonância e o saber se fortalece e passa a ser de conhecimento de todos. O conhecimento se torna patrimônio coletivo, memória e consciência da espécie.
O efeito dos cem macacos foi introduzido inicialmente pelo biologista Lyall Watson em seu livro de 1980 ‘Lifetide’. Ele narra que primatologistas japoneses que estavam estudando macacos na selva, em algumas ilhas da costa do Japão, em 1950 foram surpreendidos por um estranho fenômeno, quando estudavam os hábitos desses macacos.
Eles encontraram um macaco esperto da tribo e o ensinaram a lavar sua comida antes de comer. O animal aprendeu isto rapidamente e rápido, também, os membros de seu grupo faziam o mesmo. Pouco mais tarde esta conduta se espalhou por todo o clã e cerca de 100 macacos da comunidade lavavam sua comida antes de comer.
Mas de repente, todos os macacos e em todas as ilhas, algumas distantes mais de mil quilômetros, estavam lavando sua comida antes de comer. Esta surpreendente observação ficou conhecida como “o efeito dos cem macacos” e vem sendo repetidamente observada e relatada. O fenômeno parece ser verdadeiro, também, em humanos.
Qual seria a explicação deste comportamento? A informação, dizem, se disseminaria por campos mórficos. Rupert Sheldrake chamou o fenômeno de ‘ressonância mórfica’ e o expõe em seu livro “A New Science of Life”. Esses campos reproduzem a forma e o comportamento, sem precisar de energia convencional. Usam a energia escalar, virtual, que supera qualquer barreira de tempo ou espaço. A ressonância mórfica [3] seria um processo básico, difuso e não intencional. Sempre que um indivíduo de uma espécie aprende ou descobre um novo hábito, procedimento, atitude, isso repercute no campo ordenador da espécie. Se for repetido imporá uma ressonância que influenciará todos os indivíduos da mesma espécie.
E é por isso que temos tendências na moda, tendências na economia e na política. Mais recentemente na formação de redes de grupos em convivência na Internet. Este efeito ressoante já tinha sido detectado por Mark Granovetter [2] quando estudou os laços fortes e laços fracos na formação de redes e muito antes dele por Gabriel Tarde.
Jean-Gabriel de Tarde (1843 — 1904) foi um filósofo, sociólogo, psicólogo e criminologista francês. Um ponto inicial para o estudo das redes sociais com ressonância mórfica pode ser encontrado em Gabriel Tarde quando o autor expor uma teoria sociológica sobre as leis da imitação. A abordagem de Tarde é interessante pois trata da sociedade a partir do coletivo, marca o indivíduo como um lugar inquieto de interação, inserido numa rede social, com ideias em movimento. Bem diferente do pensamento racionalista que a teoria da época aclamava.
Gabriel Tarde coloca que a multidão é móvel, se organiza em diversos movimentos e é o primeiro estado da sociedade depois da família; diferencia opinião pública de julgamentos individuais e já em 1901 indica que a principal fonte de formação de opinião, no mundo moderno, seria o que chamava de “conversação”. Ele adotava uma noção da opinião pública, não como a soma das opiniões individuais, mas como a opinião que o indivíduo percebe e é compartilhada por outros sem espaço e tempo. O fator imitação por contágio.
O contágio cria o campo de ressonância e precisa de pelo menos quatro elementos para acontecer: pessoas, contexto, uma ideia ou um sentimento contagiante e um contato. Para o processo ter início, é preciso que um grupo de pessoas seja o portador desse sentimento viral. O contágio se espalha e leva ao crescimento exponencial até se tornar um movimento de massa com novos grupos de pessoas sendo “contagiados”. Para que o grupo pioneiro se forme e crie um “potencial epidêmico” é preciso pessoas e um determinado contexto motivado pelo sentimento ou ideia contagiante.
Hoje uma das questões de estudo prioritário é como o comportamento dos indivíduos e das instituições são afetados pelas relações sociais em um contexto. A tradição utilitarista pensa em um comportamento racional e individualista para os atos de decisão que são, minimamente, afetados pelas relações sociais. A nova condição digital substituiu o ator individual por um coletivo pensante. No cerne destas novas configurações reside a proposta do “embeddedness” [2] que é a aptidão das pessoas para manter o entrelaçamento em sociabilidades, por laços forte ou laços fracos.
Um instrumental de estudo do comportamento emergente de ressonância é a “estigmergia” baseado no estudo de colônias de formigas, onde os diferentes componentes trabalham em conjunto através de padrões ou marcas largadas no meio ambiente; o termo estigmergia foi introduzido por biólogo francês Pierre-Paul Grasse em 1959 e opera na percepção que: uma só formiga não explica nada, mas o formigueiro forma uma inteligência coletiva.
Estigmergia é um mecanismo de auto-organização de atores ou ações, por observação do comportamento, formado por atitudes supervenientes: isto é, se um agente deixa sinais no meio ambiente, outros agentes percebem e isto guia a ação subsequente. Traços deixados no meio indicam como será o seguimento da próxima ação. Dessa forma, as ações subsequentes tendem a construir uma trilha de eventos espontâneos, complexos e inteligentes sem necessidade de qualquer coordenação direta. É uma forma de ressonância mórfica da inteligência coletiva. O conjunto das formigas ressoa com feromônios a sua trilha de entendimento convergente.
Aldo de A Barreto
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[1]Sociabilidade - Para que um espaço de sociabilidade ganhe vida é necessário que as partes envolvidas estejam em processo de interação se tornem cúmplices ente si. A priori, esta cumplicidade é manifestada pela maneira maneira com que as pessoas se relacionam entre em um espaço de convivência. Um forte indício da formação destes microgrupos sociais e a formação da convivência com redes de estimas cujos participantes tendo afinidades entre si e que frequentam periodicamente o mesmo espaço de interatividade para atos e trocas de informação.
[2]”Embeddedness” é o grau em que indivíduos ou firmas estão emaranhados em sociabilidades de convivência em rede. O conceito foi introduzido por Mark Granovetter; GRANOVETTER, M.(1985). “Economic Action and Social Structure: The Problem of Embeddedness”. American Journal of Sociology 91 (3): 481.
[3] Mórfico: Que diz respeito à forma ou às manifestações externas do pensamento ou do sentimento; relacionado a: Morfemas: a palavra, a menor partícula significativa da língua. Quando analisamos uma palavra morfologicamente analisamos a sua forma no contexto do discurso. Sozinhas não indicam muito agregadas podem formar um discurso eterno no tempo e espaço.
Uma das características marcantes da cultura contemporânea é o consumo de informação mais como entretenimento do que com projetos que levem a uma consequência intelectual programada. Percebemos que informações de todos os tipos são produzidas em consideráveis proporções para distração, aqui falada como sendo um defeito do processo cognitivo quando o intelecto não focaliza a percepção. O distraimento é um capricho da imaginação que devaneia sem destino certo. As informações relevantes para trabalho, ciência e cultura não podem ser internalizadas adequadamente quando nesta condição de desvario intencional.
“Foi distraída, que esqueci de procurar… Enfim vivi os meus segundos guardados, os meus minutos contados, tornaram-se horas, dias, vida… A gente acha quando para de procurar. A gente acredita quando para de desconfiar. A gente sonha quando perde o medo de acordar.” [1]
Apesar de ser pensada, como indicado acima, como indispensável para o descanso da mente e talvez mediadora inicial da criatividade a distração pode criar barreiras para a apreensão da informação intermediária do conhecimento. Relacionada a diversão o distraimento e os meios de diversão todos desembocam em um culto ao entretenimento, onde o ato de consumir conteúdos quer ser tão divertido como ver ou escutar um show de variedades. Nada contra a distração ou o entretenimento, mas respeitando que cada coisa deve ter seu tempo.
A proximidade e o afastamento das pessoas, principalmente nos centros urbanos com densidade de habitantes tem confundido a realidade e a representação da realidade. Cada vez mais vigora a opção de uma vivência na distração, escondida para preservar a segurança do espaço individual. O sentimento de existir na realidade pode ser agora vivido por nosso outro, um avatar do que sonhamos ser. Uma vivência do ator que todos somos em um mundo povoado de imagens pré-fabricadas para diversão e não a reflexão. A percepção na velocidade se habitua a focalizar as coisas rapidamente: textos de uma lauda, noticias de de uma coluna, vídeos de 90 segundos. Noventa segundos parece ser o número mágico para agarrar a atenção dedicada em tempos de velocidade online. Mais que isso ou não se acessa ou não se atenta.
A rapidez do cotidiano e a fugacidade do instante de convivência no real tem confundido o nosso atuar: “Nosso tempo, sem dúvida prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser. O que é sagrado para ele, não passa de ilusão, pois a verdade está no profano. Ou seja, à medida que decresce a verdade a ilusão aumenta, e o sagrado cresce a seus olhos de forma que o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado.” [2]
O sagrado parece ser o entreter e o segredo a rapidez suficiente para permitir reter a atenção do indivíduo; entreter para conviver e conviver no entretenimento traz a questão de como se manter isolado, distanciado e focalizado, para interiorizar uma informação que necessite ser melhor examinada e investigada com minúcia. O mundo da mídia espetacular privilegia a rapidez do entretenimento e da distração continuada. Uma página de perfil na rede de convivência, quando percorrida, tem o foco no recente de algumas horas, pois após isso a convivência fica excedida.
Na comunicação não virtual, face a face, temos o tempo para analisar e ver a postura do outro que traz consigo todo o seu léxico presencial com códigos corpóreos que delimitam ou ampliam os enunciados de uma presença exercida e focalizada na atenção. Nas relações face a face fica difícil estar em distração, pois a presença do outro é corporal, gestual, olfativa e a força do olhar desnuda a máscara da intimidade preservada online.
Mas, há no viver dos cenários virtuais a ditadura do espetáculo em que além de convencer queremos encantar nossos amigos com uma coleção fragmentos de reflexão. Todos rejuvenescem no ciberespaço abrigados e revigorados por uma adolescência adquirida na mascara da Ilusão para clamar a atenção para a sua apresentação. Temos, na rede, a querência de uma juventude a flor da pele.
A assimilação da informação, misto de sensibilidade e percepção, é uma apropriação, quando o receptor aceita alterar sua condição de saber por acréscimo, por modificação ou sedimentação de saber antes guardado; isso só acontece na meditação distanciada e atenta. Na solidão desta assimilação o recebedor é uno e a apropriação da informação é dele, de mais ninguém. A interiorização desta percepção é a finalização de um processo de aceitação que transcende a definição de comunicação.
O conhecimento gerado é uma passagem de um fluxo de percepções que são apropriadas pela consciência. É um caminho pessoal e diferenciado em cada pessoa. A sua geração é uma reconstrução das estruturas mentais através da reelaboração da consciência cognitiva, da sensibilidade e da atenção para com a coisa apreendida. Para isso é preciso estar sozinho consigo mesmo, em solidão no mundo da balburdia das muitas vozes do entretenimento trazendo o excesso simbólico das narrativas em exibição. Uma barreira que pode impedir o curso do entendimento dentro do maior acervo de saber potencial livre, global e sem território da Internet.
(AAB)
[1] Distração em Beta Lotti <http://betalotti.blogspot.com/2011/08/distracao.html>
[2] FEUERBACH Ludwig (Prefácio da segunda edição de A essência do cristianismo), utilizada como epígrafe do livro A sociedade do espetáculo de Guy Debord. A Essência do Cristianismo. Tradução de José da Silva Brandão. 2ª ed. Campinas: Papirus Editora.
A arquitetura da Informação é o estudo da organização da informação que ajuda o usuário chegar ao entendimento do conteúdo digital pelo design de sua apresentação espacial. Representa, por exemplo, uma organização da estrutura de um website e seu conteúdo, rotulagem e categorização da informação.
Nos tempos atuais tem sido necessário para lidar com estruturas digitais de informação um design de ambientes informacionais compartilhados resistentes ao estado de desordem natural de qualquer sistema na ausência de uma força organizadora.
A arquitetura de informação é o design da interfaces mediadora para o acesso a informação. A informação adequadamente formatada só será útil quando a qualidade da sua interface permitir.
A Visualização da Informação tem por objetivo o estudo das principais formas de representação gráfica usadas para apresentação das inscrições que formam um determinado conteúdo.
As técnicas de Visualização da Informação buscam adequar graficamente o tema de uma determinada estrutura (base) de informação de modo que a representação visual gerada seja a de melhor mostra para a percepção da mensagem. Na visualização da informação procura-se reduzir ao mínimo o “estresse cognitivo do receptor” representado pela tensão provocada pela seleção de grande quantidade de informação e o tempo necessário para sua avaliação e potencial interiorização.
Quando a informação é apresentada de maneira visualmente destinada a percepção, em uma estrutura gráfica que permite sua visualização amigável o esforço cognitivo é diminuído para o receptor: no processo de julgamento e decodificação daquele conteúdo. Na tranquilidade cognitiva da boa visualização o receptor pode melhor lidar com o viés relevante da informação, pois a sensação da percepção é transmitida visualmente.
Assim,
A arquitetura da informação visa encontar a melhor interface para um espaço informacional.
A visualização da informação visa encontar a melhor interface para uma mensagem de informação destinada ao usuário.
AAB